O invejoso não conhece a felicidade

 

Redação (Quinta-feira, 28-02-2019, Gaudium Press) Após descer do Monte Tabor e ter exorcizado, diante de grande multidão, um menino possesso, Nosso Senhor dirigiu-Se à Galileia, acompanhado tão só de seus Apóstolos.

O invejoso não conhece a felicidade Caim e Abel.jpg

Um traço da divina pedagogia de Nosso Senhor

Narra São Marcos:

"Jesus e seus discípulos atravessavam a Galileia. Ele não queria que
ninguém soubesse disso, pois estava ensinando a seus discípulos. E dizia-lhes: ‘O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles O matarão. Mas, três dias após sua Morte, Ele ressuscitará'. Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar.

"Eles chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: ‘O que discutíeis pelo caminho?' Eles, porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior.

"Jesus sentou-Se, chamou os Doze e lhes disse: ‘Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!' (Mc 9, 30-35).

Comenta Monsenhor João Clá:

O Divino Mestre "quis fazer a viagem discretamente, só com os mais próximos, porque ao longo do caminho ensinava os seus discípulos. O Evangelista deixa aqui transparecer a divina pedagogia de Nosso Senhor. Ele instruía os discípulos durante o trajeto por meio do convívio.

"Não lhes ensinava a filosofia dos gregos, nem a doutrina dos mestres de Israel. Abria-lhes os segredos de seu Divino Coração, dava-lhes a conhecer tudo quanto ouvira do Pai (cf. Jo 15, 15).

Visualização mundana e materialista a respeito do Reino de Deus

"Do sublime episódio ocorrido no Tabor - ao qual só assistiram Pedro, Tiago e João -, nada havia transpirado. Entretanto, os outros Apóstolos, vendo aqueles três tão radiantes e cheios de luz, muito provavelmente percebiam que algo de grandioso devia ter acontecido. Sem dúvida estavam curiosos, talvez aflitos, para saber o que sucedera.

"Quiçá pensassem, segundo seus critérios mundanos, que o Mestre tivesse revelado algum ousado plano para a conquista do poder e havia, por isso, necessidade de se guardar rigoroso segredo.

"A ideia da restauração de um reino temporal, que desse aos israelitas um domínio sobre os demais povos, estava tão arraigada nos judeus daquele tempo - e também nos seguidores de Jesus -, que após a Ressurreição ainda houve quem Lhe perguntasse: ‘Senhor, é porventura agora que ides instaurar o reino de Israel?' (At 1, 6).

"Aos poucos, Nosso Senhor ia retificando esta visualização mundana e materialista de seus discípulos. O próprio fato de Se deslocar com eles sem que ninguém o soubesse correspondia a este objetivo. Jesus desejava estar a sós com os Apóstolos para formá-los e prepará-los para as difíceis provações futuras. [...]

"Anunciando sua Paixão e Morte, Ele punha diante dos Doze o amargor da prova e da perseguição.

Rivalidades entre os Apóstolos

"Davam-se conta os Apóstolos, decerto, de que Jesus estava criando uma instituição para dar continuidade à sua obra. Percebiam, também, que Ele os ia formando para, em determinado momento, cada qual exercer um importante papel.

"Continuavam, no entanto, tomados pela ideia equivocada de um reino terreno, e sua preocupação era precisamente saber quem ocuparia os altos cargos nesta nova organização."

Essa mentalidade mundana e materialista dos Apóstolos fazia com que surgissem rivalidades entre eles, sobre as quais comenta o Padre Didon:

"Pedro tinha sido designado como chefe; Tiago e João pareciam se beneficiar de certa predileção. Ora, estas preferências acentuadas não deixavam de despertar nos outros algum ciúme e inveja. [...] Daí as disputas ácidas, as competições, as ofensas, o amor-próprio ferido."

Ilusões dos israelitas a respeito do Messias

Continua Monsenhor João Clá:

"Nesse clima de ambição e de delírio de mando dos seus discípulos, Nosso Senhor os está pacientemente preparando para não sucumbirem à terrível provação que se aproximava. [...]

"Qual o motivo de terem medo de perguntar?

"Jesus sempre os tratara com uma bondade inefável e a ocasião não podia ser mais propícia, estando eles a sós com seu Mestre. Era tão fácil, sobretudo naquele momento de intimidade, pedir-Lhe um esclarecimento!

"Havia para isso uma profunda razão psicológica. A perspectiva daquela Morte ia contra todos os planos de projeção social, de solução política e econômica que eles almejavam. Significava a destruição do castelo de ilusões que os israelitas montaram a respeito do Messias: o de um homem capacíssimo, cheio de dons para libertar do domínio romano o povo eleito e
projetá-lo acima dos outros povos."

Devemos nos alegrar com a superioridade de outros

Os Apóstolos "pelo caminho tinham discutido quem era o maior" (Mc 9, 34).

Tal discussão mostra que eles estavam picados pela inveja, que é "um dos vícios mais perniciosos. Quem por ela se deixa levar não conhece a felicidade.

"O invejoso está sempre se comparando com os outros, e quando se depara com quem o supera em qualquer ponto, logo se pergunta: ‘Por que ele é mais e eu menos? Por que ele tem e eu não?' Esta atitude torna ácida e amargurada a sua vida, causando toda espécie de dissabores e, por vezes, até de mal-estar físico.

"Deste "por quê?" - proveniente em última análise do orgulho - decorrem os males todos."

Ao notarmos que uma pessoa é superior a nós, devemos ter, não inveja, mas alegria, como afirma o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

"Precisamos ser almas famintas de admirar essa superioridade. Vendo que uma pessoa tem mais do que eu, digo: "Mas que bom!" E se possui uma coisa que não tenho: "Mas que ótimo! Que satisfação!" E se é mais virtuosa: "Lamento não ser tão virtuoso quanto deva, mas me alegro que tal pessoa seja mais virtuosa do que eu!"

Por meio de Nossa Senhora, peçamos a Deus que nos conceda a graça de jamais consentirmos em qualquer tentação de inveja, e termos uma admiração humilde e desinteressada pelas pessoas superiores a nós.


Por Paulo Francisco Martos
(in "Noções de História Sagrada" - 183)

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1- CLÁ DIAS, João Scognamiglio. EP. O inédito sobre os Evangelhos. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana; São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2014, v. IV, p. 375-377.
2- DIDON, OP, Henri-Louis. Jésus-Christ. Paris: Plon, Nourrit et Cie, 1891, p.484.
3- CLÁ DIAS, op. cit., p. 378-379.
4- CLÁ DIAS, João Scognamiglio. EP. O inédito sobre os Evangelhos. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana; São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2014, v. IV, p. 375-377.
5- DIDON, OP, Henri-Louis. Jésus-Christ. Paris: Plon, Nourrit et Cie, 1891, p.484.
6- CLÁ DIAS, op. cit., p. 378-379.