O Cristão é outro Cristo padecente I

 

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Da Redação - (Quarta-feira, 29-05-2019, Gaudium Press) A Paixão de Cristo se configura, pois, como o martírio por excelência. Antes mesmo das mais atrozes perseguições ocorridas durante o Império Romano, como a de Décio (249-251) ou a de Diocleciano (285-305), os cristãos relacionavam seus sofrimentos e a paciência em meio às provas aos padecimentos do Messias, identificando-se com Ele. De resto, a tese subjacente era: se "Jesus é o modelo; o cristão deve se inspirar em seu exemplo".

É nesse fundo de quadro que Santo Inácio de Antioquia, um dos primeiros escritores eclesiásticos, demanda aos romanos: "Deixai que seja imitador da Paixão do meu Deus".

Os mártires eram perseguidos, em geral, pelo simples fato de serem cristãos, além de frequentemente acusados por crimes não cometidos, como o de subversão, superstição, heresia ou lesa-majestade. Unindo-se às dores do Salvador, anunciavam na própria carne a "Cristo crucificado" (cf. I Cor 1, 23).

Assim, por analogia, se o lenho da Cruz resgatava a antiga árvore do paraíso, os mártires tomavam suas sementes e a regavam com o próprio sangue, como alter Christus, conforme a célebre expressão "sangue de mártires, semente de cristãos".

Em geral, as narrações dos suplícios dos primeiros cristãos procuravam evidenciar o quanto a vida e a morte dos mártires se conformavam aos relatos bíblicos, figurando-os como alter Christus, com frequentes paralelos com os feitos do Salvador.

Também Eusébio de Cesareia realça a imitatio Christi nesses heróis da fé: "Com efeito, nós o adoramos [Jesus], por ser Filho de Deus. Quanto aos mártires, nós os amamos com razão enquanto discípulos e imitadores do Senhor, por causa de seu invencível amor ao próprio rei e mestre.

Possamos também nós obter o privilégio de nos tornarmos seus companheiros e condiscípulos!" Outrossim, o martírio de Tiago, primo de Jesus, foi realizado em "imitação ao [martírio] do Senhor e em prol da mesma doutrina".

É possível distinguir nestes e em outros relatos o distinto fundo de quadro pedagógico. Na realidade, a intenção dos hagiógrafos era revelar, através de exemplos de santidade, como cada fiel era convidado a configurar a sua própria vida com a do Redentor.

Não se tratava, contudo, de uma mera simbologia; os mártires eram elevados à categoria de participantes da própria função salvífica e divina do Redentor. Era como se Jesus se manifestasse mais uma vez, agora na carne imolada desses eminentes discípulos. Eis uma das razões porque se tinha grande apreço por suas relíquias, veículo eficaz de intercessão junto a Deus.

Conclui-se, pois, que o mártir é alter Christus pela imitação, porque Cristo é alter Martyr, por antonomásia.

Padre Felipe de Azevedo Ramos EP

(continua em outro artigo)

Artigo anterior: O Cristão é outro Cristo padecente

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7. Cf. Moss, Candida R. The other Christs: Imitating Jesus in Ancient Christian Ideologies of Martyrdom. New York; Oxford: OUP, 2012, p. 19.
8. Ibid.
9. Santo Inácio de Antioquia. Epístola aos Romanos, VI, 3.
10. Cf. Ste. Croix, G. E. M. de. Why Were the Early Christians Persecuted? Past & Present, n. 26, 1963, p.9.
11. Cf. Ste. Croix, G. E. M. de. Why Were the Early Christians Persecuted? Past & Present, n. 26, 1963, p.9.
12. Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica, IV, cap. 15, 42 (trad. Paulus v. 15, 4. ed., 2017).
13. Ibid., IV, cap. 22, 4 (trad. cit.). Cf. etiam: ibid., V, cap. 2, 2.
14. Cf. Moss, Candida R. Op. cit., p. 46.