Eclipse do sol... eclipse de Deus

 

Redação (Terça-feira, 02-07-2019, Gaudium Press) Contemplando o pôr ou o nascer do sol podemos entende-los, aprender muito, tirar lições de vida.

Talvez, mais do que analisar exaustiva e empiricamente estes acontecimentos, seja mais útil e interessante aproveitar as analogias a que eles podem nos levar e dali tirar conclusões que podem ser aplicadas até para a vida espiritual.

É só assim que vale a pena admirar, contemplar e... aproveitar estes fenômenos que acontecem gratuitamente diante de nós.

Eclipse do sol... e eclipse de Deus -Foto Pixabay.jpg

Concretamente, para hoje, 02 de julho, anuncia-se um eclipse solar. Deverá ser total e não apenas parcial.
Eu nunca vi, mas asseguram que um eclipse solar, mais que um certo temor, causa assombro.

Eclipse de Deus

O obscurecimento da Fé e do senso de Deus poderia ser comparado a um eclipse solar total: é um acontecimento assombroso.

Um filósofo chamado Martin Buber compara as lições que um eclipse oferece com vida que se vive em nossos dias, com a "hora histórica que o mundo atravessa".

Para ele, atualmente, vivemos um "eclipse da luz do céu", um "eclipse de Deus". (1)

A cultura atual eclipsa Deus

Foi valendo-se dessa analogia que o Papa Emérito Bento XVI observou que a cultura atual tende a excluir Deus ou a considerar a Fé como um assunto privado, sem repercussão na vida social; isto ocasiona o "eclipse de Deus", o qual não é apenas um olvido, mas "uma verdadeira rejeição do Cristianismo e uma negação do tesouro da Fé recebida". (2)

Esse eclipse de Deus ameaça destruir a própria existência do homem, pois, apagando-se o senso do pecado e o senso de Deus, que o fundamenta, o homem naufraga em seu egoísmo; crescem sem freios a ambição e a crueldade, extinguem- se os sentimentos de compaixão e afeto, o ter passa a valer mais que o ser, o bem- estar material e o prazer - mesmo o ilícito - se convertem no fim supremo da vida, tudo se reduz à eficiência econômica e ao consumo desordenado, e são relegados os valores mais profundos da existência - espirituais, morais e relacionais. (3)

Por fim, obscurecendo-se o senso de Deus, apaga-se também o próprio senso do homem: "Sem o Criador, a criatura não subsiste. [...] Antes, se se esquece Deus, a própria criatura se obscurece". (4)

Eclipse do senso do ser, eclipse do pecado

Os lamentáveis efeitos do eclipse de Deus e da perda do senso do pecado ensombrecem nossa época, pois, como adverte o Catecismo, "ignorar que o homem tem uma natureza lesada, inclinada ao mal, dá lugar a graves erros no campo da educação, da política, da ação social e dos costumes". (5)

"Ó feliz culpa, que mereceu tal e tão grande Redentor!"

Nesta hora dramática, contudo, não devemos nos desanimar; brilha ainda a esperança em nosso mundo enfermo:
"O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma luz" (Is 9, 1).
Essa luz é Jesus Cristo, o qual nos ensina que quem necessita de médico são os enfermos, não os sadios.
E para isso Ele, nosso Divino Médico, veio ao mundo: para salvar- nos, a nós, pecadores, e levar-nos à conversão (cf. Mc 2, 17).

"Ó feliz culpa, que mereceu tal e tão grande Redentor!", cantamos na Vigília Pascal, porque, se são terríveis o pecado e suas consequências, imensamente mais é o que Cristo para nós conquistou com sua morte e gloriosa Ressurreição, de maneira que "onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rm 5, 20).

Por isso a Igreja, constituída por Cristo como "sacramento universal de salvação", (6) não cessa de instar aos pecadores que reconheçam seus pecados e acorram à fonte inesgotável da misericórdia, tal como o fizeram o filho pródigo e o bom ladrão, ou como aquela ditosa mulher que por sua compunção mereceu ouvir estas consoladoras palavras:

"Seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor" (Lc 7, 47). Não esqueçamos, entretanto, esta doce advertência: "Vai e não tornes a pecar" (Jo 8, 11).

Confiar em si é estar cego...

Esse perdão misericordioso de Deus manifesta-se de modo especial no Sacramento da Reconciliação.
Ali o próprio Jesus, na pessoa do sacerdote, espera para brindar- -nos a mancheias sua bondade e sua clemência.
Só uma coisa é necessária: reconhecer com humildade que pecamos.

"Quem confia em si mesmo e nos próprios sentimentos está como que cego pelo seu ‘eu' e o seu coração se endurece no pecado.
Ao contrário, quem se reconhece frágil e pecador confia em Deus e d'Ele obtém graça e perdão". (7)

Maria, luz e esperança

Mas se, apesar de tudo, a recordação da enormidade de nossos pecados nos perturba, em nossa consciência as culpas nos envergonham e a justiça de Deus nos faz estremecer, não nos deixemos abater pela angústia nem caiamos no abismo do desespero. (8)

Pelo contrário, recorramos sem demora a Maria Imaculada, Mãe do Senhor e nossa Mãe amantíssima, e Lhe supliquemos:
"Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte", com a certeza de que quem confia em seu poderoso auxílio nunca será abandonado. (JSG)

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1 - Cf. BUBER, Martin. El eclipse de Dios. Estudios sobre las relaciones entre religión y filosofía. Buenos Aires: Nueva Visión, 1984, p.25.

2 - BENTO XVI. Mensagem para a XXVI Jornada Mundial da Juventude.
3 - Cf. JOÃO PAULO II. Evangelium vitæ, n.23.
4 - Cf. CONCÍLIO VATICANO II, op. cit., n.36.
5 - CCE 407.
6 - Cf. CONCÍLIO VATICANO II. Lumen gentium, n.48.
7 - BENTO XVI. Discurso aos participantes no curso sobre o foro interno, organizado pela Penitenciaria Apostólica, de 7/3/2008.
8 - Cf. SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. Homilía II en alabanza de la Virgen Madre. In: Obras Completas. 2.ed. Madrid: BAC, 1994, t.II, p.639.