A irresistível doçura cristã

 

Redação (Quarta-feira, 06-06-2018, Gaudium Press) Equivocam-se os homens ao procurar a solução de seus problemas no dinheiro, nas tramas políticas, ou nas armas. Deveriam eles buscá-la, antes, na poderosa doçura cristã, mais forte que os ventos e as tempestades.

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A força da tempestade, o poder dos ventos, o flagelo das intempéries castiga sem cessar as pedras dos mais belos monumentos históricos, erodindo-os, deformando-os, tornando-os testemunhos mudos da inexorável ação destruidora dos elementos. Seja nas misteriosas pirâmides do Egito, nos suntuosos templos orientais ou nas portentosas fachadas de catedrais românicas como a de Coimbra, impressiona-nos apreciar as profundas cicatrizes deixadas na rocha pelas inclemências do tempo ou pelas paixões humanas.

Para melhor enfrentar o deletério passar dos séculos, certos monumentos foram confeccionados com um material mais perdurável que a pedra: o bronze. Sua durabilidade e resistência à corrosão levaram a gregos e romanos utilizá-lo na fundição de grandes estátuas, algumas das quais se conservam até hoje em bom estado. E a maior parte das que desapareceram, não foram destruídas pelas forças da natureza, mas sim por homens ávidos de usar a valiosa matéria de que estavam compostas na cunhagem de moedas ou na fundição de novas estátuas. O bronze é usado também desde a mais remota antiguidade na confecção de armas e utensílios domésticos, por inúmeros povos. Seu largo uso deve-se ao fato de possuir bela aparência e fácil modelagem, além da grande durabilidade.

Segundo abalizados estudos, o uso dessa peculiar liga de cobre e estanho foi introduzido na Europa pelos fenícios. Nesse continente, foi largamente utilizada na fundição de sinos, alguns tão imponentes como o Tsar Kolokol (Sino do Tsar), o maior sino existente, datado de meados do século XVIII, e que se encontra no Kremlin, em Moscou. Pesa 222 toneladas e mede 6,14m de altura por 6,6m de diâmetro.

Por suas características e simbolismo, não é de estranhar que tenha sido o bronze a matéria escolhida por Arnolfo di Cambio para perpetuar numa artística escultura, fundida no século XIII, em memória do primeiro Papa. A famosa imagem, que se encontra na Basílica do Vaticano, representa o príncipe dos Apóstolos sentado majestosamente em seu trono, tendo na mão esquerda as chaves do Reino dos Céus, e a mão direita paternalmente elevada para dar a bênção. Os dois dedos estendidos lembram a natureza divina e humana de Nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto os outros três se unem numa manifestação do mistério da Santíssima Trindade.

O pé direito adianta-se naturalmente à frente, num discreto convite para ser venerado.

Todo fiel, de qualquer idade ou nacionalidade, visitando a Basílica princeps da cristandade, ao passar diante da majestosa imagem do primeiro Papa sente uma suave e irresistível força que o impele a realizar um ato de devoção repetido sem interrupção ao longo dos séculos: oscular o venerável pé do Apóstolo. Constatará então que esse pé, feito de bronze, está todo desgastado. Não pelas intempéries, nem pela ação destruidora de alguma substância corrosiva, mas sim pelos piedosos lábios dos peregrinos, capazes de vencer com a doçura do amor filial a proverbial dureza desse metal.

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Eis aí uma admirável lição. No mundo de hoje, tão marcado pela ganância e pela violência, os homens se equivocam, procurando a solução de seus problemas no dinheiro, nas tramas políticas, ou nas armas. Deveriam eles buscá-la, antes, na poderosa doçura cristã, mais forte que os ventos e as tempestades, e contra a qual nem o mais rígido metal resiste.

Por Ir. Rodrigo Fugiyama Nunes, EP
(in "Revista Arautos do Evangelho", Março/2010, n. 99, p. 50 - 51)